Previ Encerra 2024 com Déficit de R$ 17,6 Bilhões no Plano 1
A Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, conhecida como Previ, encerrou o ano de 2024 com um déficit significativo de R$ 17,6 bilhões em seu principal plano de benefícios, o Plano 1. Esse resultado marca uma reviravolta em relação ao ano anterior, quando a entidade registrou um superávit de R$ 14,5 bilhões. O desempenho negativo do Plano 1, que administra um patrimônio de cerca de R$ 240 bilhões e é o maior fundo de pensão da América Latina, foi divulgado em 13 de março de 2025 e gerou debates sobre os desafios enfrentados pela Previ em um cenário econômico volátil. Este artigo explora em profundidade as razões por trás do déficit do Plano 1 da Previ em 2024, os impactos no mercado financeiro, as perspectivas para o futuro e o que isso significa para os associados e para a economia brasileira como um todo.
O Que é a Previ e o Plano 1?
A Previ é o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, uma das instituições mais tradicionais e influentes do sistema previdenciário complementar brasileiro. Fundada em 1904, a entidade tem como missão garantir a aposentadoria de milhares de trabalhadores do banco, oferecendo planos de benefícios que asseguram estabilidade financeira no longo prazo. O Plano 1, em particular, é o maior e mais antigo plano gerido pela Previ, abrangendo cerca de 91 mil participantes, entre ativos, aposentados e pensionistas, e detendo um patrimônio robusto que o coloca entre os gigantes do setor no Brasil.
O Plano 1 opera no modelo de benefício definido, o que significa que os valores pagos aos aposentados são previamente estabelecidos com base em critérios como tempo de serviço e salário. Esse modelo exige uma gestão financeira rigorosa para garantir que os recursos acumulados sejam suficientes para honrar os compromissos futuros. Em 2024, no entanto, o desempenho do Plano 1 foi impactado por fatores adversos no mercado financeiro, levando ao déficit que agora está sob escrutínio de especialistas e do Tribunal de Contas da União (TCU).
Histórico Recente da Previ
Nos últimos anos, a Previ vinha apresentando resultados positivos, o que reforçava sua posição como um dos fundos de pensão mais sólidos do país. Em 2023, por exemplo, o Plano 1 fechou o ano com um superávit de R$ 14,5 bilhões, um desempenho impulsionado por ganhos em investimentos de renda fixa e uma gestão cautelosa em meio a um cenário econômico global de recuperação pós-pandemia. Esse superávit funcionou como um “colchão financeiro”, ajudando a entidade a absorver oscilações futuras. No entanto, a mudança drástica para um déficit de R$ 17,6 bilhões em 2024 evidencia os desafios enfrentados pela Previ em um ano marcado por instabilidade nos mercados e decisões estratégicas que não alcançaram os resultados esperados.
Por que o Plano 1 da Previ Teve Déficit em 2024?
O déficit de R$ 17,6 bilhões no Plano 1 da Previ em 2024 não foi um evento isolado, mas o resultado de uma combinação de fatores econômicos e estratégicos que impactaram negativamente os investimentos da entidade. Segundo o relatório divulgado pela Previ, o principal responsável pelo desempenho negativo foi a carteira de renda variável, que registrou uma rentabilidade de -12,02% ao longo do ano. Esse resultado reflete a alta volatilidade do mercado acionário brasileiro em 2024, influenciada por incertezas políticas, inflação persistente e uma desaceleração econômica global.
Além disso, a renda fixa, que tradicionalmente é uma fonte estável de ganhos para fundos de pensão, foi afetada pela abertura da curva de juros no Brasil. Embora os investimentos em renda fixa tenham rendido 8,1% em 2024, esse retorno não foi suficiente para compensar as perdas na renda variável. Outro destaque positivo foi o segmento de investimentos no exterior, que alcançou uma rentabilidade de 40,4%, mas sua participação no portfólio total do Plano 1 (cerca de 9,5%) foi insuficiente para reverter o quadro geral.
Impacto da Renda Variável no Déficit
A carteira de renda variável do Plano 1, que representa 26,6% do patrimônio total (R$ 59,9 bilhões), inclui ações de empresas listadas na B3, a bolsa de valores brasileira. Em 2024, o Ibovespa, principal índice do mercado acionário brasileiro, enfrentou períodos de forte oscilação, com quedas acentuadas em setores como commodities e varejo, que são tradicionalmente relevantes na composição dos investimentos da Previ. A valorização do real em alguns momentos do ano também pode ter reduzido os ganhos em dividendos de empresas exportadoras, afetando ainda mais os resultados.
De acordo com João Fukunaga, presidente da Previ, o cenário desafiador de 2024 foi marcado por “forte oscilação nos mercados acionários”, o que é uma realidade comum em fundos de pensão maduros como o Plano 1. Ele destacou que essas oscilações são esperadas e que o déficit do ano consumiu o superávit acumulado em 2023, resultando em um saldo negativo acumulado de R$ 3,16 bilhões ao final de 2024.
Renda Fixa e Investimentos no Exterior
Enquanto a renda variável foi o calcanhar de Aquiles do Plano 1 em 2024, a renda fixa ofereceu um desempenho mais estável, mas aquém do necessário para equilibrar as contas. Com R$ 143,9 bilhões alocados nesse segmento (63,9% do total), a Previ se beneficiou de títulos públicos e privados que renderam 8,1% no ano. No entanto, a abertura da curva de juros — ou seja, o aumento das taxas de juros de longo prazo — pressionou os retornos reais desses ativos, já que a inflação no Brasil permaneceu em patamares elevados.
Por outro lado, os investimentos no exterior foram um ponto positivo. Representando 9,5% do portfólio (R$ 21,3 bilhões), esse segmento inclui ativos em mercados internacionais, como ações e fundos negociados em bolsas americanas e europeias. A rentabilidade de 40,4% reflete a valorização do dólar frente ao real e o bom desempenho de índices como o S&P 500 em 2024. Apesar disso, a baixa exposição a esses ativos limitou seu impacto no resultado geral do Plano 1.
Como o Déficit da Previ Afeta os Associados?
Um déficit de R$ 17,6 bilhões em um fundo de pensão como a Previ naturalmente levanta preocupações entre os associados, que dependem do Plano 1 para suas aposentadorias. No entanto, a entidade foi enfática ao afirmar que o resultado de 2024 não representa um risco imediato para os participantes. Segundo a Previ, o déficit acumulado ao final do ano (R$ 3,16 bilhões, considerando o superávit de 2023) está muito abaixo do limite que acionaria o chamado “equacionamento” — uma medida que exige contribuições extraordinárias dos associados e do Banco do Brasil para cobrir o rombo.
O limite para o equacionamento no Plano 1 é de R$ 18,8 bilhões, o que significa que o déficit atual representa menos de 17% desse valor. “Mesmo em momentos mais difíceis, o plano se mostrou resiliente, sem necessidade de contribuições extras dos participantes”, afirmou a Previ em comunicado oficial. Isso oferece um alívio temporário aos associados, mas não elimina a necessidade de uma gestão mais eficiente para evitar déficits recorrentes no futuro.
Fluxo de Caixa do Plano 1 em 2024
Outro ponto que reforça a estabilidade do Plano 1 é seu fluxo de caixa equilibrado. Em 2024, a Previ pagou R$ 16,5 bilhões em benefícios aos aposentados e pensionistas do Plano 1, enquanto as entradas de recursos também somaram R$ 16,5 bilhões. Essas entradas incluem R$ 5,2 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio, R$ 7,4 bilhões em cupons de títulos públicos, R$ 700 milhões em aluguéis de imóveis e R$ 3,2 bilhões em contribuições dos associados e do Banco do Brasil.
Esse equilíbrio demonstra que, apesar do déficit contábil, o Plano 1 manteve sua capacidade de honrar os pagamentos aos beneficiários sem recorrer a reservas ou aportes extras. No entanto, a dependência de retornos de investimentos para sustentar esse fluxo no longo prazo destaca a importância de uma estratégia mais robusta para os próximos anos.
A Auditoria do TCU e os Questionamentos à Gestão
O desempenho negativo da Previ em 2024 não passou despercebido pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que abriu uma auditoria em fevereiro de 2025 para investigar as perdas acumuladas até novembro de 2024, então estimadas em R$ 14 bilhões. A iniciativa, liderada pelo ministro Walton Alencar, visa “conhecer toda a governança corporativa da Previ e os processos que envolvem as tomadas de decisão relativas ao investimento de seus recursos”. O objetivo é mapear potenciais riscos e evitar prejuízos semelhantes aos registrados em outros fundos de pensão no passado.
A Previ respondeu às críticas afirmando que não houve prejuízo propriamente dito, mas sim uma rentabilidade abaixo do esperado devido a condições de mercado adversas. A entidade também destacou que os planos sob sua gestão estão em equilíbrio e que não há risco iminente de equacionamento ou de contribuições extraordinárias. Apesar disso, a falta de transparência em alguns dados apresentados ao público tem alimentado questionamentos sobre a eficácia da gestão atual.
A Gestão de João Fukunaga
João Fukunaga, presidente da Previ desde 2023, enfrentou críticas em 2024 relacionadas à sua qualificação para o cargo e às decisões estratégicas da entidade. Em sua mensagem aos associados, Fukunaga defendeu que o déficit de 2024 é parte de uma oscilação natural em fundos de pensão e que a Previ já começou a reverter o resultado negativo, com um superávit de R$ 1,3 bilhão registrado em janeiro de 2025. Ele também enfatizou que o patrimônio de R$ 239,43 bilhões do Plano 1 torna o déficit uma fração pequena do total, representando menos de 1,5% do caixa.
No entanto, a dependência excessiva da renda variável e a incapacidade de antecipar as quedas do mercado acionário levantaram dúvidas sobre a estratégia adotada. Especialistas sugerem que uma alocação maior em investimentos internacionais ou uma abordagem mais conservadora poderiam ter mitigado as perdas, algo que a gestão de Fukunaga terá de considerar para os próximos anos.
Impactos no Mercado Financeiro Brasileiro
O déficit da Previ em 2024 não afeta apenas os associados do Plano 1, mas também tem implicações para o mercado financeiro brasileiro como um todo. Como um dos maiores investidores institucionais do país, a Previ exerce influência significativa na B3 e no mercado de renda fixa, com participações em empresas como Vale, Petrobras e outros gigantes do setor privado. Um desempenho negativo em sua carteira de renda variável pode sinalizar desafios mais amplos no mercado acionário, afetando a confiança de outros investidores.
Além disso, o déficit da Previ reforça a percepção de volatilidade na economia brasileira em 2024, um ano marcado por incertezas fiscais, pressões inflacionárias e uma política monetária restritiva do Banco Central. Para analistas, o resultado da Previ pode ser um reflexo de um ambiente econômico menos favorável para fundos de pensão, que dependem de retornos consistentes para cumprir suas obrigações de longo prazo.
Comparação com Outros Fundos de Pensão
Embora o déficit da Previ em 2024 seja expressivo, ele não é um caso isolado entre os fundos de pensão brasileiros. Entidades como Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa Econômica Federal) também enfrentaram desafios nos últimos anos, com déficits acumulados que exigiram equacionamentos e aportes extras de seus patrocinadores e associados. A diferença é que a Previ, por seu tamanho e solidez histórica, tem uma margem maior para absorver oscilações sem comprometer sua saúde financeira no curto prazo.
Comparado a fundos internacionais, como os da Europa ou dos Estados Unidos, o desempenho da Previ em 2024 reflete as particularidades do mercado brasileiro, onde a renda variável é mais suscetível a choques políticos e econômicos. Enquanto fundos globais se beneficiaram de uma recuperação consistente em 2024, a Previ sofreu com a instabilidade doméstica, o que destaca a necessidade de diversificação geográfica em sua estratégia de investimentos.
Perspectivas para o Futuro da Previ
Apesar do déficit de R$ 17,6 bilhões em 2024, a Previ mantém uma visão otimista para o futuro. O superávit de R$ 1,3 bilhão registrado em janeiro de 2025 é um sinal positivo de que a entidade pode estar entrando em uma fase de recuperação. No entanto, reverter o déficit acumulado e garantir a sustentabilidade do Plano 1 no longo prazo exigirá ajustes estratégicos e uma leitura precisa do cenário econômico global e doméstico.
Para 2025, a Previ planeja manter uma gestão ativa de riscos, com foco em proteger o patrimônio do Plano 1 contra novas oscilações. Isso pode incluir uma redução na exposição à renda variável, um aumento nos investimentos internacionais e uma maior diversificação em ativos alternativos, como imóveis e fundos estruturados. A entidade também deve reforçar sua comunicação com os associados, oferecendo mais transparência sobre suas decisões de investimento e os fatores que influenciam seus resultados.
Desafios Econômicos em 2025
O cenário econômico para 2025 será crucial para o desempenho da Previ. No Brasil, a expectativa é de uma política monetária menos restritiva, com a possibilidade de corte na taxa Selic caso a inflação se estabilize. Isso poderia beneficiar os investimentos em renda fixa, mas também pressionar os retornos reais em um ambiente de crescimento econômico moderado. No mercado acionário, a recuperação dependerá de fatores como a estabilização política e o desempenho das exportações brasileiras, especialmente em setores como mineração e agronegócio.
Globalmente, a Previ pode se beneficiar de um cenário de crescimento nos Estados Unidos e na Europa, o que reforçaria os ganhos em seus investimentos internacionais. No entanto, riscos como uma desaceleração na China ou conflitos geopolíticos poderiam impactar negativamente os mercados, exigindo uma gestão cautelosa e adaptável por parte da entidade.
Por que o Déficit da Previ Importa?
O déficit de R$ 17,6 bilhões da Previ em 2024 é mais do que um número em um balanço financeiro; ele reflete os desafios enfrentados por fundos de pensão em um mundo de incertezas econômicas e destaca a importância de uma gestão eficiente para proteger o futuro de milhares de trabalhadores. Para os associados do Plano 1, o resultado de 2024 é um lembrete de que, mesmo uma entidade sólida como a Previ, não está imune às flutuações do mercado.
Para o mercado financeiro, o desempenho da Previ serve como um termômetro da saúde econômica brasileira, influenciando a confiança de investidores institucionais e individuais. E para a sociedade como um todo, o caso da Previ levanta questões sobre a sustentabilidade dos sistemas previdenciários complementares em um contexto de envelhecimento populacional e volatilidade econômica.
À medida que a Previ avança para 2025, o foco estará em recuperar o equilíbrio financeiro do Plano 1 e fortalecer sua posição como líder no setor de fundos de pensão. Com um patrimônio robusto e uma história de mais de um século, a entidade tem as ferramentas necessárias para superar esse momento desafiador, mas o caminho à frente exigirá estratégia, transparência e resiliência.
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